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Queimaram nossas vozes, não nossa essência

  • Foto do escritor: camila gabrielle siring beckeer
    camila gabrielle siring beckeer
  • 29 de mar.
  • 4 min de leitura

Minha família seria linda se fosse unida. Esse foi um desejo meu desde criança. Quando minha tia não trazia meus primos pra brincar no Natal, eu ficava muito brava e, de certa forma, com a expectativa quebrada. Quando era hora de alguém ir embora, eu ficava muito triste, porque a casa da minha avó sempre foi meu mundinho encantado.

Eu queria explorar, criar, construir coisas lindas no jardim da minha avó. Queria ter vários gatos. Queria ser uma criança normal e criativa, como sempre fui. Eu sempre chegava aqui com uma baita expectativa de realizar tantas coisas… ter uma casinha na árvore, um cantinho meu.

Devido à minha mãe precisar sair da casa do meu pai — que também é outro caso de misoginia na época que eu vou contar mais adiante (e nada contra meu pai hoje, eu já o perdoei) — isso só reforça como a escolha de com quem nos relacionamos influencia diretamente nossa vida inteira.

Desde pequena eu quis ter essa casa, esse lar seguro, que pra mim, até então, era a casa dos meus avós. Mas, por causa de um sistema machista, patriarcal e opressor, eu fui sendo cada vez mais reprimida. Talvez essa seja a razão psicológica de eu ter tanta vontade de ter um blog, de gostar tanto de escrever, de fotografia, de me expressar por arte… talvez uma forma de mostrar às pessoas como eu vejo o mundo, como eu me sinto, e até mesmo de ser reconhecida.

Sempre houve uma sombra ao redor. Desde que nasci.

E eu admiro a coragem da minha mãe de enfrentar tantos misóginos de peito aberto pra conquistar o que ela acreditava ser certo. Não poderia ser diferente: até o meu nascimento foi marcado por negligência masculina. Meu próprio médico estava bebendo com meu pai no dia do meu parto, e minha mãe sofreu sozinha pra conseguir me parir.

Mas esse não é o assunto de hoje.

O assunto de hoje é sobre como um paraíso pode ser tão tóxico ao mesmo tempo.

E isso por causa das reclamações do meu avô — e eu quero deixar claro que eu o amo muito, mas não dá pra passar pano só porque ele é idoso.

Me dói ter que expor isso. Meu ego gostaria que minha família fosse perfeita, como minha mãe tentou mascarar por um tempo… mas essa máscara caiu quando eu decidi viver aqui sozinha, enquanto ela morava em Rondônia.

Isso também explica muita coisa… inclusive o porquê da minha avó ter adoecido tão cedo, ter perdido seus sonhos, sua criatividade e seus movimentos após um AVC sistêmico, que muito provavelmente não foi causado só pelo físico, mas por tudo que ela viveu.

E eu estou aqui pelas minhas ancestrais pra falar disso.Eu sou o ciclo que encerra essa dor.

Começa com pequenos sinais. No início da minha vivência aqui, eu não abaixava a cabeça. Sempre fui criada livre pela minha mãe, e eu não iria me curvar a esse tipo de opressão.

Mas tem momentos na vida em que você só quer voltar pra casa, descansar, ter consolo. E, no meio disso, vieram também problemas amorosos — o que era esperado, já que não tive presença paterna constante, então minha tendência era me envolver com pessoas narcisistas.

Por muito tempo achei que meu pai era narcisista. Mas foi convivendo com meus avós que fui percebendo mais e mais que muitas das crenças limitantes da minha cabeça vieram da família do meu avô.

Claro que eu não uso isso como desculpa pra travar na vida. Eu sigo, dou a volta por cima. Mas dói saber que a pessoa que a gente ama não vai mudar até o fim da vida.

Dói ter medo de pedir um pedaço de terra que é, por direito, da minha mãe… e ouvir que estamos tentando roubar.

Dói ter medo de pedir um cantinho pequeno pra viver em paz, sem incomodar ninguém… porque qualquer palavra vira “tentativa de roubo”.

Mais triste ainda é ver que, depois que meu tio faleceu — mesmo tendo feito de tudo pelo meu avô — ele morreu sem viver os próprios sonhos, podado por reclamações, chantagens e brigas. Meu tio era extremamente inteligente.

E mesmo com minha mãe viajando quatro dias pra cuidar deles, deixando os sonhos dela de lado pra estar mais próxima da família… ainda assim ele amaldiçoa nossos gatos, odeia nosso cachorro, briga, mente para vizinhos e amigos — tudo com uma única intenção: ser o único provedor e manter controle.

Ele prefere vender a terra pra estranhos do que dividir com a própria família.

Ele destrói a própria família, acaba com a reputação de quem mora na casa, pra manter dependência… mas não percebe que isso não funciona mais. Só gera marcas, revolta e solidão.

E eu sinto muito pela minha avó.

Ela se cala perto dele, como um cachorro com medo do dono. Mas, quando está sozinha, conversa, se abre… e conta coisas que nem acredita mais, porque ele não gosta.

Ela nunca se maquiou, nunca se arrumou… porque ele dizia que isso era “coisa de puta”. Enquanto isso, ele podia sair sem dar satisfação, deixando ela grávida, sozinha em casa.

E isso é só uma parte.

Essa carta é um desabafo no meu blog, mas também um alerta pra quem estiver lendo:

Cuidem das suas crenças limitantes.Não permitam qualquer homem na vida de vocês.Não abram mão dos seus sonhos por causa de ninguém.Não abaixem a cabeça, nem mesmo dentro da própria família.

Tenham coragem.

E, se forem mães, criem seus filhos pra tratarem suas mulheres com respeito.

Eu realmente acredito que minha alma vem de alguma mulher que se rebelou na inquisição… porque eu e minha mãe buscamos cura natural, espiritualidade, terapias — e somos tratadas como bruxas.

Não nos queimam na fogueira…mas queimam nossa reputação, nossa dignidade, nossos sonhos.

E sinto muito pela minha tia… que saiu de um relacionamento abusivo, parecido com o do pai, mas entrou em outro onde não enxerga a manipulação, o vitimismo e o controle emocional — por dependência emocional e financeira.

Ela não acredita no próprio potencial. Prefere se explorar em um trabalho que não valoriza seus dons, por medo de julgamento dessa cidade medíocre, misógina e fechada.

E isso é uma pena.

Porque essa cidade também não vai crescer assim. Nossa cultura pomerana, tão valiosa, vai se perder.

Os conhecimentos antigos de ervas, escritos em livros que vieram escondidos com quem fugia do nazismo… já se perderam também, queimados por aqueles que vieram carregando o mesmo ódio.

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